sexta-feira, 23 de setembro de 2011

A crise da alteridade.

Será a propriedade privada a grande inimiga da alteridade?
O outro em filosofia é mais do que uma questão. Para alguns seu olhar define o limite da liberdade, oferecendo o critério segundo o qual os sujeitos tornam-se responsáveis. O olhar é o solvente da consciência em si, revela o que há embaixo das camadas de maquiagem que as consciências usam. A partir do olhar alheio a consciência se sente objeto para outra. O que faz da consciência uma consciência, portanto, é o outro. Não há sujeito sem o outro.
A alteridade é o que revela o sujeito enquanto tal, mas força-o a deixar algo de si para trás. O outro é, por isso mesmo, uma força constrangedora e violenta mas simultaneamente solidária. Esse grande constrangimento, o de ser si mesmo, curiosamente foi moralizado, tornou-se um mau sinal hodiernamente.
Há festas ao auto fazer-se e à capacidade de gestar o feto de sua própria consciência. A autonomia iluminista ainda surge na aurora de nossos tempos, daí o ideal de amadurecimento como dar a si mesmo a própria consciência. Não há na equação iluminista a variável da alteridade.
O trauma do olhar alheio naturalmente exige uma resistência. A alteridade torna-se por vezes a grande noite no horizonte iluminista, o inimigo persistente que teima em revelar à consciência que ela não é independente e não pode se auto construir-se.
O tal sentido da alteridade aparece por vezes no cinema americano. Não é incomum verificar os grandes e longos close-ups nos olhos dos alienígenas invasores. O suspense dos filmes de ficção geralmente se dá pela demora em revelar a estranheza do corpo alheio. O outro, o outsider, é assustador e tem olhos enormes, sempre fixos, encarando o espectador.
O alienígena remove a maquiagem subjetiva e, contra ele, o mito iluminista se ergue imponente e autoritário, exigindo que o estrangeiro pague a multa por intrometer-se na gestação que a consciência de si jura criar por si mesma. A maior propriedade reclamada pela consciência é a liberdade de criar-se a si própria. A partir dessa liberdade ela quer estender seus domínios sobre a terra e demarcar um território. Tudo o que é estrangeiro ameaça a entrincheirada consciência.
O outro se torna terrorista. E todo o terror é ameaça à propriedade privada.

domingo, 14 de agosto de 2011

A Loucura

O afastamento da experiência comum é uma meta por vezes constrangedora. Escrever se distanciando dos momentos que afetam essa cotidianidade , apesar do embaraço, motiva muitos dos discursos científicos e, não raramente, é aquilo que dá ao discurso sua cientificidade.
É de dentro desse conflito que fala o filósofo. Não se quer cientista, mas exige de si mesmo aquele distanciamento. Discursa sobre a experiência mais ordinária, mas pretende que esta seja comunicável universalmente. A exigência de distanciamento afoga o filósofo. Seus conceitos são tentativas de buscar o ar, com quem eleva o nariz buscando mais fôlego para se afundar novamente.
A loucura é dessas experiências ordinárias que se apresentam repentinamente e que obrigam o filósofo a respirar, a se salvar do afogamento. Haverá alguma situação mais intangível que a loucura (alheia)? Será que experimentar a loucura alheia encontra desconforto análogo em alguma outra experiência?
A loucura por vezes é encarada como incapacidade de adequação a uma estrutura de significados, outras como excesso de inteligência. No mundo burguês, não gratuitamente, todos os gênios são maliciosamente chamados de loucos. A eles é concedida uma série de licenças poéticas os autorizando a pensar e fazer o impensável. Outro aspecto da loucura repetidamente abordado é conflito interno. Diz-se que quem tem muitos conflitos internos e os sente profundamente demais são loucos.
A intenção não é debater a loucura e as instituições que a nomeiam. O papel político e a função da loucura nas sociedades modernas. Já fizeram isso e muito bem. A intenção é descrever a experiência diante da loucura fora das instituições concretas que a regulam.
A loucura por vezes é acompanhada do desconhecimento. Des-conhecer é um conhecer recuado, o negativo de re-conher. Havia algo sempre presente à memória cujos infinitos significados tornavam-se claros à medida em que se atentasse a este. Desconhecer significa perder esse caminho, por isso mesmo pode-se dizer que é um desaprender.
A experiência mais imediata de todo o sujeito é o olhar do outro. Sartre chamava a atenção ao olhar alheio como revelador da experiência de si mesmo. O desconhecimento como loucura é a perda do olhar alheio. O louco não se dá ao reconhecimento de si pelo outro. Por isso mesmo, muito se diz de um certo olhar vago ou olhar vazio dos loucos. O que é mais constrangedor é que o outro da relação também não é reconhecido. Ele é na verdade o “algo” desconhecido ou desaprendido. A experiência da loucura alheia é a experiência de não ser reconhecido como outro em uma relação.
O não ser reconhecido é desesperador e frustrante. Um amigo de sempre que não o vê como outro e que o desconhece a despeito de seu olhar. A banalidade dessa experiência é o que faz dela tão profunda porque a faz invisível.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Indústria da memória

As falsas cidades e a indústria da falsificação que se espalham pelos EUA, tão profundamente compreendidas por Eco encontram uma correspondência no cinema. O que Eco não anuncia na sua análise é que a mimética cultura americana, falsifica não somente monumentos, ambientes, animais e pessoas. Ela falsifica também a geografia.
Os filmes de ficção científica dão o enredo dessa potência falsificadora. Sempre que um americano – geralmente cosmopolitas urbanóides, preferencialmente membros de um grupamento social periférico (mito burguês da liberdade infantil assegurada pela ingenuidade) – viaja no tempo, o que ele encontra além de um deslocamento cultural e histórico, é uma imensa transposição geográfica. A memória se desterritorializa-se do presente, norte-americano, para se reterritorializar em uma Europa medieval.
O passado americano toma uma forma peculiar, pois o que encontram os personagens no passado nada mais são do que as memórias do totalmente outro: o Europeu. Varrendo a memória, o americano típico encontra um passado europeu que não lhe pertence de direito, que compõe, todavia um plano de imanência, uma imagem do seu próprio pensamento em que a Europa e os EUA se sobrepõe. Geograficamente o personagem típico não encontra qualquer oceano entre os dois continentes. A sobreposição histórico/cultural é também, portanto, territorial.
O que Eco permite entrever é que a indústria do falso, é a indústria em que se vende uma lembrança falsa, a qual construirá junto a diversas outras lembranças um plano de imanência esquizofrênico. Toda viajem no tempo ou é encerrada num ciclo em que todos (ou quase todos) os personagens voltam à salvo ao presente, ou termina em uma estranha constatação fatalista, em que algum personagem obriga-se a permanecer no passado e sua presença acaba por se tornar uma necessidade no tempo que se recupera. A imagem é portanto, não somente sobreposta naturalmente, mas liga-se pelos fios da Moira, dando a memória falsa americana uma legitimidade perversa: antes de existirem americanos, sua cultura já anunciava-se como necessária, como utopia européia.
Said encontra um orientalismo na geografia imaginária. Deleuze encontra conceitos e planos. O cinema não encontra nada além de americanos por todos os territórios, que no cinema são reduzidos a unidades sobrepostas, onde os americanos são anunciados escatologicamente, cumprindo sua missão, seu devir.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

O homem é uma máquina! Seus órgãos formam um conjunto de engrenagens colaborativas, cuja finalidade é produzir desejos, angústias, dores e alegrias! “Há tão somente máquinas, em toda a parte, e sem qualquer metáfora: máquinas de máquinas, com seus acoplamentos, suas conexões.” Há tão somente produção e interrupção: “fluxos e cortes”.
Esse homem máquina, eterno producente de si, produz também uma imagem de si. Imagem-modelo: ideal de si mesmo. Ideal que representa um produtor mais eficaz, mais ágil e qualificado. Só fluxo, sem cortes!
A máquina producente busca essa ideia de si mesmo e se produz no trajeto. Introduz em si novas ferramentas, softwares, métodos de funcionamento almejando a máquina perfeita, que nunca cessaria de produzir. A máquina sem cortes não descansa, não pára, não se angustia. Ela é só desejo e delírio.
“Se Deus não existe tudo é permitido”. A máquina ideal então é secular! Essa secularização corresponde àquela da arte em Benjamin. A máquina secular abandona o culto religioso e exige para si própria um culto secular. A máquina real quer ser cultuada como ela própria cultua a ideal.
Qual o limite do ganho de produtividade? As máquinas que não cessam, disputando suas olimpíadas, exibem-se publicamente na forma de objeto de culto: heroínas e heróis!
Heróis e heroínas paradoxalmente são antes máquinas virtuosas. Sua atitude é heroica porque elas produzem o que ninguém mais seria capaz. Não são produções fisicamente improváveis, mas moralmente impossíveis. O herói faz a escolha moral que ninguém mais seria capaz. A máquina ideal, produtora extrema, deve conviver com o mito da virtude. A máquina-modelo não permite o corte no fluxo produtivo e o mito da virtude não admite a perversão moral da máquina: o dopping.

sábado, 7 de maio de 2011

Justiça

Há reflexões que procuramos incessamente. Outras nos encontram malgrado nosso. A proposta atual é desse segundo tipo: ela me encontrou. O risco de ser encontrado é a eterna sensação de surpresa, de que nunca se está verdadeiramente pronto para este momento. Ser encontrado é um chamado para encontrar-se - tarefa possivelmente traumática.
Fui flagrado com a notícia da morte de um terrorista famoso: Bin Laden. Finalmente a busca terminou, encontrou-se quem se buscava e pôs-se fim a vida do "maior inimigo da América". 
Tenho questionado às pessoas - socraticamente - sobre a visão que possuem de um cidadão muçulmano. A resposta tem sido um retrato falado do Bin Laden, que finalmente morreu.
Quando é que associamos a imagem de uma cultura à imagem de um terrorista? O assassinato de Bin Laden é o assassinato de um tipo, de um símbolo. Quem morre é a barba e turbante, é o Islam cuja mitologia ocidental teimou em vincular à imagem da carne de Osama.
Curiosamente alguns liberais, como Ricardo Velez defendem que finalmente o oriente médio foi encontrado pelas reflexões ocidentais, vislumbraram assim a aurora liberal promotora de nosso progresso. Como era de se esperar o Liberalismo espantou os orientais e os levaram à revolução social.
Tony Stark sentou-se no divã ocidental oriental e viu a má compreensão oriental da tecnologia do ocidente. O herói é quem leva a verdadeira consciência, torna inteligível, como um pai que repreende um filho, o mal das armas.
Vingança ocidental no oriente!
A vitória está completa. O oriente parece finalmente ter sido assimilado pelo ocidente. Adotaram a democracia liberal e seu principal símbolo jaz no mar. Faz-se assim a justiça trágica e a vingança está completa.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Literatura extemporânea - Alan Moore

As reflexões de Alan Moore surpreendem pela sutileza do conteúdo eidético e pela revolução na forma de serem apresentadas: histórias em quadrinhos (HQ).
Relendo o V for Vendetta pode-se esbarrar em uma questão incômoda e controversa acerca das origens e dos limites de um governo autocrático. Nos anexos do primeiro capítulo Alan Moore revê sua posição no V for Vendetta em que uma guerra nuclear e a crise dela decorrente culmina em fascismo. Afirma que o fascismo inglês, para nascer, não precisaria realmente de um holocausto nuclear. Sua constatação é alarmante: já se vive em um fascismo.
As reações ao fascismo são sempre controvérsas. No caso dessa HQ, as transformações sociais estabelecem-se sob uma lei de causalidade. A guerra causa o fascismo, que por sua vez tolhe a liberdade, originando sádicos e  masoquistas de toda a sorte, que acabam por fomentar o fascismo. Todo fascismo precisa de símbolos. Toda liberdade também. Regimes autocráticos exigem violência, o remédio não é diferente. Dessa forma, "codinome V" é um sádico violento, efeito do caos e defensor da liberdade.
Obviedade!? Sim. Até aqui sim. O momento em que "V" escapa à previsibilidade é quando apresenta os valores que exige realizados. Liberdade de pensamento, respeito às diferentes formas de cultura e expressão. Autonomia da vontade. O que tornaria esse herói anti-herói é a assunção da condição de efeito da guerra e do fascismo, transubstanciada em sadismo. O que o faz comum - e isso é o que não é óbvio - é a eterna defesa de valores heróicos tradicionais. Nada mais burguês do que abster-se dos objetos da vida prática e viver conforme valores morais abstratos. Sua meta é a realização da sociedade burguesa, todavia, nunca foi necessário viver em regimes democráticos para isso. A liberdade que se faz pela força é o sintoma cutâneo do fascismo radical. Dessa maneira "V" é o sintoma de uma doença tão antiga quanto a Europa, mas o protagonista da HQ é o próprio fascismo que estabelece, mesmo nos resultados aparentemente controvérsos, como "V", as condições de possibilidade de sua perpetuação.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Diálogo sobre o Egito

Igor Fernandes Essa onda que invadiu o oriente com certeza vai ser tema de estudos no futuro, é uma virada de consciênciado povo que teve como um dos fatores a internet, a única forma de imprensa e comunicacao realmente livre.
Bruno Aleixo mto complicado, qnt mais eu leio, menos eu tenho a declarar... da uma olhada nos vox populi regionais quanto a conceitos religiosos, relativos a minorias e vc me diz se engole democracia sem democratas..
Valdir Ribeiro Pow...eu me impressiono contigo Bruno, c acha chance de encaixar Democratas em tudo hahaha....eu tenho ficado muito afeito à aristocracia, talvez uma democracia aristocrática. Imprensa livre e democrática, parecem valores bem ocidentais que gostaríamos muito que os atrasados orientais aprendessem né...finalmente os africanos estão aprendendo o valor da liberdade. Os discursos por aí não parecem revelar esse sentimento?!
Igor Fernandes Não existe nenhum país democrático no mundo. Estados Unidos o país "mais democratico " do mundo é o mais opressor de todos os paises. Não há exemplo democrático no mundo a se seguir.
Valdir Ribeiro Democracia já nasceu frustrada. O maior exemplo democrático de todos os tempos, o grego, passava longe de ser democracia. Democracia moderna? - balela! Nasceu com o imperialismo europeu. Democracia representativa? Uma ova! Ninguém vota em projeto político, mas em indivíduos. Mudemos pros países nórdicos ou pra Austrália - os EUA que deram certo!
Bruno Aleixo nao fui eu quem falou primeiro em "democracia" no Egito, é o q todos falam.. Agora meu conceito de democracia é um pouco diferente do que vcs sugerem, no meu entedimento, existe sim, democracia e liberdade é outra coisa.. liberdade é um conceito cagado, na boa..
Valdir Ribeiro Liberdade e democracia são, modernamente, indissociáveis. Pode ser cagado, mas é o que tem composto os discursos mais repetidos. Só porque é insistentemente repetido merece a atenção, não pra nos livrarmos dele simplesmente. Especialmente quando ouvimos esse conceito associado a ideias relativas ao mundo islâmico.
Igor Fernandes
Estudando história eu descobri que o homem contemporaneo nunca viveu a liberdade. Quando houve a revolucao francesa, o que aconteceu? O rei foi deposto e alguns anos depois entrou um Imperador! Ora, imperador é mais do que rei, e Napoleão i...
Bruno Aleixo
o q é repetido nos discursos é freedom, e nao liberty.. liberty seria o meu conceito de liberdade, algo mais abstrato.. freedom seria o q mais se relaciona a democracia: discurso livre, esse bla-bla-bla de sempre... e o q seria a liberdade ...
Valdir Ribeiro
Não sei a diferença do uso conceitual de Freedon e liberty. Esclareça-me!
Dá pra fazer muitas laudas sobre liberdade, desde a ideia de que ser livre é não ter impedimentos para agir, passando pela ideia de que a ação livre é a ação condicion...
Bruno Aleixo
eu prefiro nao tentar definir o conceito de liberdade... mas freedom eu entendo como a sensacao individual de ser desimpedido, independentemente do contexto, liberty já é o conceito geral de liberdade, mais abstrato.. de qq forma qnd um ame...
Igor Fernandes A nossa liberdade,igualdade e fraternidade é uma concepção burguesa e não para todos. Por isso os parlamentos estão repletos de pessoas das camadas mais ricas. Tanto no Brasil quanto no Egito. E lógicamente os interesses dos parlamentares não são os interesses do povo. Existem pessoas boas intencionadas na política porém o sistema é tão falho e burocrático (como o castelo de Kafka) que não se chega a lugar algum. Por isso na minha opinião democracia atualmente não tem nada a ver com liberdade.
Bruno Aleixo liberdade, igualdade e fraternidade sao otimas antiteses ao feudalismo.. qq concepcao ocidental recente de mundo moderno em qq variante de ideia economica (esquerda ou direita) elaborados depois da rev. francesa se encaixam nesse lema (socialismo, capitalismo, anarquismo), quase tudo é liberdade, igualdade e fraternidade, uma grandiosa babaquice hj em dia, bem piegas..rs.. na minha opiniao, a unica coisa q interessa ao povo sao os principios burgueses, entao quais sao os ideias nao burgueses que interessam ao povo?
Valdir Ribeiro
E nós seríamos burgueses narcisistas de ego inflado querendo pensar como pensa quem não é como nós? Eu não gosto de classificações generalizantes, tais como burguesia, classe operaria etc...Liberdade como desempedimento? Os desafio a encont...rar uma ação sincera e realmente desempedida, em cujas raízes não se encontrem quaisquer condicionamentos. Desafio ainda a encontrar uma escolha ou ação do mesmo tipo. Essa tríade valorativa nascida na modernidade tem tanta validade quanto o amor mundi cristão, é lindo e vazio. Insisto nesse vazio. Essa consciência que chamo eurocêntrica, inflacionada...esse super-ego, no sentido de ego gigantesco, que se acha capaz de entender tudo, é o que realmente me preocupa. O oriente seria só ID e nós o superego e o Ego. Somos capazes até de pensar na relação entre democracia e liberdade e avaliá-los como se esses valores, burgueses ou não, valessem algo lá!
Bruno Aleixo
nao vejo tanta disparidade entre o que vc se refere como eurocentrismo e o resto do mundo.. acho q é a ciencia que atua como esse super ego.. o positivimo.. Nao tneho mto problema c isso.. nos lugares em se nota em maior proporçao as pessoa...s sempre tiveram mais o que comer e nao se matam a toa, nem cortam as orelhas dos outros..
cara, a palavra é 'propriedade'!
Valdir Ribeiro
Eu tenho me referido a uma tradição imperialista e egocêntrica de origem quase indetectável, mas que inssitentemente reaparece e se revigora hodiernamente. Tal como o hábito de se contratar, especialmente nos EUA, especialistas em oriente p...ara definir os rumos deste para com eles e no fato que tais acessores são exatamente o exemplo de consciência inflacionada que se impõe com uma autoridade desregulada. Tomando sua assertiva, se palavra é propriedade, a palavra dos islãmicos torna-se imediatamente propriedade dessa consciência narcisista. A própria visão pejorativa assinalada aí, é sinal de uma consciência que vê o diferente à luz apenas de si, identificando como defeito "neles" coisas que também temos e preferimos mascarar. Pior, identificamos neles como parte de sua substância enquanto que em nós como acidental.
  
 
     

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Mito e Geografia

As duas categorias que mais me instigam hodiernamente são o mito e a geografia imaginária. Said, mesmo sem ter utilizado mito em qualquer parte de sua obra, ao refletir sobre a questão das relações entre Oriente e Ocidente, esbarra com a ideia de geografia imaginária. Esta é reflexo de um mundo organizado e classificado que se torna familiar aos indivíduos que ocupam determinado espaço. Os objetos, uma vez classificados, compõe um sentido transcendente para aquele grupamento, isto é, tornam-se geograficamente imaginários. O que é possível complementar a essa ideia é que o espaço geográfico imaginário é mítico.
Os mitos sempre são permeados de espaço. Seu sentido relaciona-se ora direta, ora indiretamente com o espaço. Note-se Zeus, deus dos trovões e das cavernas, ou as ninfas que por capricho sopravam levantando poeira e alterando formas rochosas; mesmo Jeová é chamado de deus da montanha em algum momento e é capaz de influenciar no espaço onipotentemente, só para citarmos alguns exemplos simples. É possível sofisticar-se os exemplos e relacionarmos uma concepção temporal ao mar em seu eterno retorno, ou nos aforismas de Heráclito em que o rio lava e transforma, cria e recria o Ser incansavelmente.
As enchentes e deslizamentos alteraram profundamente a geografia física teresopolitana. É relativamente simples reorganizar o espaço com um pouco de razão e ciência quem sabe. Me parece, todavia, hercúleo o trabalho de compreenção do que será a geografia imaginária teresopolitana. O espaço outrora conhecido e familiar cedeu com as chuvas. Os rios seguem outros rumos agora, criam um novo tipo de Ser. A questão "porque o Ser e não antes o nada?", resgatou-nos da monotonia a um custo trágico. Somos novamente intimados a nomear o Ser e se re-conhecer nessa nova configuração espacial, a criarmos nossos novos mitos.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Um pouco de desentendimento

Os últimas dias são de incognoscibilidade. Há uma série de instituições particulares, filantrópicas, governamentais agindo na área dos acontecimentos ligados às chuvas do dia 12 de janeiro. Essas instituições que aparentemente deveriam sincronizar-se, envolveram-se em uma série de conflitos nos últimos dias. 
O exemplo forte deste conflito é a relação entre a Prefeitura e a Cruz vermelha. A primeira, governamental, argumenta que orienta-se pela vontade popular e realiza uma sorte de interesses cujos objetivos são o bem estar e a segurança da sociedade que a mantém e a legitima, tendo em seu controle recursos financeiros e humanos. A segunda, articula-se e organiza-se internacionalmente, sugere retoricamente que sua preocupação é o bem estar do ser humano e o suporte desinteressado em busca do bem estar de todos os indivíduos, apóia-se no trabalho voluntário e nos órgãos públicos.
O que se esconde por baixo desse conflito institucional? Ideologia!
Há uma disputa ideológica intensa entre estas duas. A primeira - em situações como a nossa - é exposta à impopularidade por conta de sua impotência e incompetência. Incompetência de prevenir ou minimizar os efeitos de um fenômeno natural tão antigo quanto o próprio planeta. Impotência porque é desorganizada desde suas raízes, desesperadamente desarticulada e desorganizada, incapaz de reagir adequadamente. Surge assim um tipo de discurso positivo e naturalizante que, ao mesmo tempo, destaca a positividade da ação governamental e atribui às chuvas e fenômenos naturais a causa do evento.
A segunda, especialmente aqui, no anseio de disfarçar os interesses que a movem e o descontrole de suas ações, julga a si mesma como imparcial e independente de qualquer instituição. Eximi-se assim da responsabilidade de organização interna. Em bom português, dá a si mesma a chance de culpar, do que quer que dê errado em suas ações, terceiros. Se a cruz vermelha é ligada à convenção de Genebra e a ONU, é claro que ela é orientada por interesses dessas instituições, mas quais são eles? Não importa, o discurso de imparcialidade neutraliza a questão.
O que se busca é legitimidade. A cruz vermelha precisa da legitimidade da neutralidade para angariar voluntários. Os governantes para manterem-se governantes. Ouvi de alguns que os dois tem  o mesmo objetivo, ou seja, socorrer os necessitados. Concordo quanto ao interesse comum, mas discordo do que se chama de necessitados. Cruz vermelha e Estado são os necessitados desses momentos e os dois, finalmente, defendem a si mesmos nessa disputa.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Mitos Teresopolitanos

Alguma coisa acontece com quem vive situações como as dos últimos dias. Cria-se uma série de estórias e relatos envolvendo quem conta e os eventos. Estes relatos se propagam intensamente, de tal forma, que se contássemos o número de pessoas que os arautos dizem terem visto falecidas, o resultado seria o triplo do número real de mortes. Todos os voluntários parecem querer ver algo dramático, presenciar algo épico, sentir a catástrofe na pele. Um impulso imediato os move em direção às áreas destruídas atrás da possibilidade de se encontrar com alguém a ser resgatado. É o mito da ajuda. A expressão mais usual é a de que devemos fazer nossa parte, fazer o possível para ajudar.
A extensão, durabilidade e intensidade desses relatos míticos atendem a uma demanda significativa. Uma sociedade constrói a partir desses relatos sua memória. As informações veiculadas pelas mídias, por mais que busquem a dramatização cinematográfica (ou de novela) dos eventos ao entrevistar pessoas em choque, ou insistir em imagens de destruição, não são capazes de formar essa memória trágica que se adquire a partir desses relatos. O máximo que consegue é vender à essa memória surgente uma imagem que lhe dê satisfação objetiva.
O mais interessante desses relatos é a intensidade com que são contados. Não basta uma seleção de ideias e de palavras usuais nesses eventos, tais como, "perderam tudo", "importante é estar vivo" ou a minha preferida "o bairro acabou". Não! Esses relatos são preenchidos por variações sensíveis na voz, revelando uma forte emoção suprimida, o importante é seguir contando. Olhos que se apertam como que contendo lágrimas, mas que também serão reprimidas porque relatar o que se viu é o mais importante.
Toda essa emoção é comprovada pela objetividade do drama vivenciado. Não basta assitir de longe ao resgate de um homem morto. Este homem deve estar abraçado a um menino, automaticamente identificado como seu filho. Seu rosto deve estar voltado ao do filho, um olhar vazio, morto, mas preocupado com aquele momento em que suas vidas findaram. Finalmente, este homem deve ser alguém conhecido, alguém bom, respeitado cuja perda da vida será sentida pela eternidade. Eis o mito da tragédia.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Semiologia do cumprimento

Um cumprimento despretencioso nesses tempos de catástrofe revela um pensamento a espreitar as cordas vocais implorando por um som que o expresse. Do velho - oi tudo bem!? Passamos ao - oi, tudo bem, e na sua casa todos bem!? Uma expressão que se ouve e se repete com imensa naturalidade.
Em tempos idos essas curiosidades sobre seu estado de ânimo e saúde "tudo bem?" eram mais um desses comportamentos repetitivos e regulares que se institucionalizaram. Mas e o acréscimo da preocupação com a casa do interlocutor, ou com a família? Esse é o espírito dos tempos que vivemos.
Alguns antropólogos já mostraram o valor da casa e da geografia imaginária e o quanto o sistema de classificações humanas depende de uma identificação com o espaço em que se vive e o quanto esse espaço imaginário é uma área de conforto e descanso graças à intimidade com este mundo classificado. A pergunta pela casa revela o deslocamento e o desconforto de quem pergunta. Teresópolis não é mais cognoscível, não se permite entender por um sistema de classificações usual há pouco tempo. Ouvir a resposta de que "tudo está bem, no meu bairro não aconteceu nada" ou "perdi tudo, o bairro acabou" mais do que servir à elaboração de uma ciência dos fatos, responde ao anseio imaginário de se reclassificar um espaço outrora cognoscível.
Há alguns dias uma pergunta tem rondado os pensamentos: o que será de Teresópolis depois disso tudo? Ainda não sabemos. É certo que ela servirá aos mesmos propósitos, servindo de área de conforto e descanso, mantendo seus vínculos sociais ativos, com suas instituições todas funcionando como funcionavam (mal), mas o espírito dessas manifestações e sob quais signos seremos capazes e entender a cidade são questões cujas soluções ainda permanecerão na penumbra.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Os mortos que andam?

O cenário apocalíptico tem me fascinado. A pergunta fundamental é o que acontece à humanidade diante do caos apocalíptico? Ou se a reformularmos pode-se apresentá-la assim: do que a humanidade é capaz no caso do apocalípse?
Aquilo que alguns fãs de zumbis por vezes não compreendem é que a alegoria dos mortos transeuntes é a promessa profética para o nosso próprio apocalípse. Uma multidão reduzida a um comportamento instintivo, procurando sem rumo e sem espectativas nenhum objetivo. Algumas séries e filmes de zumbi são taxativos ao afirmar que os zumbis são uma massa sem consciência.
A inconsciência e a ação humana reduzida à execução dos instintos primários torna a humanidade essa massa. Os conscientes sobreviventes desumanizados, ainda possuidores de consciência, que os distanciam da massa, são a marca de uma nova espécie, de um novo tipo de criatura: o sobrevivente.
Os grunhidos e sons incompreensíveis tornam-se uma sinfonia de morte, revelando o sentido originário do caos, ouvidos e compreendidos por uns poucos sobreviventes. Os sobreviventes são aqueles que não se comportam naturalmente, pois são chamados a criar para si uma consciência nova diante da finitude. A morte dos sobreviventes e sua imediata transformação em zumbi, é a incoporação de sua condição de indivíduo à de membro de uma massa uniforme. Não morrer era des-humano, no apocalípse muda-se essa condição. Lutar contra a morte passa a ser des-humano. Dessa forma os sobreviventes realizam-se plenamente enquanto lutam pela vida, mas distanciam-se de sua condição humana de finitude, ao negar a morte como regra.
O apocalípse e a morte anunciados realizam-se aos poucos. O que chamaríamos de agentes da morte, zumbis, ou agentes de massificação peregrinam a esmo pelas ruas. Ouvimos e identificamos seus sons ideológicos, sem,. no entanto, compreendê-los. Diante de nossa situação des-humanizada, me pergunto por quanto tempo sobreviveremos.

O trágico e a tragédia

Há um imensa sondagem sobre o conceito de tragédia e sua manifestação estética. Basta lembrar de Hegel e Nietzsche para se entender a extensão do assunto.
A tragédia enquanto manifestação artística implicava geralmente em um retorno irrecusável de situações para os personagens. Suas vidas seguiam um fluxo eterno de retornos e repetição de ações e consequências. Veja-se Édipo, atraiçoado por uma profecia, foge de seu destino o quanto pode, mas este acaba por encontrá-lo.
A música, por sua vez, além de climatizar o ciclo vital, inaugura ou encerra uma cena, um acontecimento, dramatizando-o e dando à tragédia um aspecto ritualístico.
A lição deste tipo de tragédia seria apresentar e promover a aceitação do inevitável, admitindo-se que os dramas e ações são condenadas por uma força maior que os leva a consequência não previsíveis individualmente, mas de pleno sentido quando visto em totalidade. Esta aceitação da condição de submissão diante da força natural é o espírito da tragédia. Essa naturalização recebe dos ecos sonoros da música um significado psicológico que comunicaria a aceitação e, ao mesmo tempo, torna o ato de aceitar um ritual.
Os heróis trágicos situam-se longe do cognoscível. Pelo contrário, suas vidas são manipuladas por uma força natural que lhes transcende, mas que acaba por se mostrar ao Herói, que finalmente aceita sua situação.
Heis nossa situação: um evento climático somado à uma série de incompetências da esfera governamental, que nos lega um número absurdo de pessoas mortas, um grande de feridos e doentes outro gigante de desabrigados, chamado de Tragédia.
A tragédia compondo os títulos das matérias nos jornais que informam a situação preenchem, de um lado, necessidade ideológica do poder público de naturalizar o evento, dando a este o caráter da inevitabilidade. Ao mesmo tempo, prepara os espíritos dos vitimados para a futura aceitação de sua própria situação fragilizada. Enfim, auxilia da desresponsabilização dos responsáveis, atribuindo a uma força natural ou sobrenatural a causa de eventos como os ocorridos.
Acompanhando as informações acerca da Região Serrana do Rio, nota-se  como a grande mídia televisiva sempre se utiliza de algum tipo de efeito sonoro anunciando o ato heróico ou o depoimento da vítima. Ouçam as criações míticas das bocas dos milhares de transeuntes que nada mais tem a fazer a não ser falar do evento, o  primeiro é o som que completa o quadro desta tragédia, o segundo é o som do ritual que se faz à chuva, à catástrofe.
A conclusão perigosa advém daí: se é trágico, não haverá culpados, somente um destino que precisa e vai, inevitavelmente, se realizar na forma de catástrofe, então, mesmo quando se aponta a incompetência do poder público em prever tais situações, pode-se sempre apelar para a surpresa e a força natural incontrolável, safando quem quer que seja o responsável pelo caos que se instalou.