quinta-feira, 14 de julho de 2011

O homem é uma máquina! Seus órgãos formam um conjunto de engrenagens colaborativas, cuja finalidade é produzir desejos, angústias, dores e alegrias! “Há tão somente máquinas, em toda a parte, e sem qualquer metáfora: máquinas de máquinas, com seus acoplamentos, suas conexões.” Há tão somente produção e interrupção: “fluxos e cortes”.
Esse homem máquina, eterno producente de si, produz também uma imagem de si. Imagem-modelo: ideal de si mesmo. Ideal que representa um produtor mais eficaz, mais ágil e qualificado. Só fluxo, sem cortes!
A máquina producente busca essa ideia de si mesmo e se produz no trajeto. Introduz em si novas ferramentas, softwares, métodos de funcionamento almejando a máquina perfeita, que nunca cessaria de produzir. A máquina sem cortes não descansa, não pára, não se angustia. Ela é só desejo e delírio.
“Se Deus não existe tudo é permitido”. A máquina ideal então é secular! Essa secularização corresponde àquela da arte em Benjamin. A máquina secular abandona o culto religioso e exige para si própria um culto secular. A máquina real quer ser cultuada como ela própria cultua a ideal.
Qual o limite do ganho de produtividade? As máquinas que não cessam, disputando suas olimpíadas, exibem-se publicamente na forma de objeto de culto: heroínas e heróis!
Heróis e heroínas paradoxalmente são antes máquinas virtuosas. Sua atitude é heroica porque elas produzem o que ninguém mais seria capaz. Não são produções fisicamente improváveis, mas moralmente impossíveis. O herói faz a escolha moral que ninguém mais seria capaz. A máquina ideal, produtora extrema, deve conviver com o mito da virtude. A máquina-modelo não permite o corte no fluxo produtivo e o mito da virtude não admite a perversão moral da máquina: o dopping.

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